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Exercício físico não deveria ser uma punição

Por Marissa Freitas, educadora física
“Comi demais, preciso treinar.”
“Exagerei no fim de semana, agora tenho que compensar.”
“Preciso me acabar no treino para perder o que ganhei.”
Quantas vezes o exercício físico foi colocado na nossa rotina como uma espécie
de punição?
Para muitas pessoas, treinar ainda está associado à culpa. A ideia de que
precisamos sofrer para merecer comer ou ter o corpo que desejamos transforma
uma prática de cuidado com a saúde em mais uma fonte de cobrança.
Mas exercício físico não deveria ser castigo.
O nosso corpo não precisa ser punido por ter comido, descansado, saído da rotina
ou não corresponder a determinado padrão estético. Uma refeição não define a
nossa saúde, assim como um dia de descanso não apaga o caminho que já
percorremos.
Treinar pode, sim, ter objetivos estéticos. Podemos querer emagrecer, ganhar
massa muscular, melhorar a composição corporal ou nos sentir melhor diante do
espelho. Não há nada de errado nisso. O problema começa quando o exercício
passa a ser uma forma de compensação ou quando acreditamos que precisamos
odiar nosso corpo para encontrar motivação para cuidar dele.
O exercício também pode ser uma forma de presença. Durante o treino,
percebemos nossa respiração, nossa força e os movimentos que o corpo é capaz
de realizar. Aos poucos, deixamos de enxergar o corpo apenas como imagem e
passamos a reconhecê-lo como parte da nossa história e das nossas conquistas.
A relação com o exercício pode ser diferente.
Podemos treinar porque queremos mais força para o dia a dia. Porque queremos
disposição. Porque queremos envelhecer com autonomia. Porque gostamos de
perceber nosso corpo evoluindo. Porque queremos cuidar da saúde.
E, principalmente, porque entendemos que nosso corpo merece cuidado hoje,
independentemente de como ele está.
Isso não significa que todos os treinos serão fáceis ou prazerosos. Disciplina
também faz parte do processo. Haverá dias em que será preciso fazer mesmo
sem vontade. Mas existe uma diferença importante entre disciplina e punição.

Disciplina é escolher algo que faz bem para você, mesmo quando não é o
caminho mais fácil.
Punição é acreditar que você precisa sofrer para compensar alguma coisa.
Disciplina respeita o corpo e considera os limites. Punição ignora sinais de
cansaço, transforma o treino em obrigação e alimenta a culpa. Uma constrói
constância. A outra pode afastar a pessoa do exercício.
Quando mudamos essa perspectiva, o exercício deixa de ser uma dívida que
precisamos pagar e passa a ser uma escolha de cuidado.
Você não precisa treinar porque odeia o seu corpo. Pode treinar porque decidiu
cuidar dele. Pode buscar mudanças sem deixar de respeitar quem você é hoje.
Talvez essa seja uma das mudanças mais importantes na nossa relação com o
exercício físico: parar de treinar contra nós mesmas e começar a treinar a favor da
nossa saúde, da nossa força e da nossa vida.
Marissa Freitas
Educadora Física
Instagram: @marissafreitas