
As malditas tomadas brasileiras
por Claudio Candiota Filho
Democracia vem da palavra grega demokratia. Demos quer dizer povo e kratia significa
governo, ou seja, democracia é o “governo do povo”. Ora, isso todo mundo sabe e este artigo
não tem o propósito de ensinar grego aos leitores. O propósito é tentar estabelecer princípios
que levem o leitor a concluir se no Brasil temos democracia ou não. Alain Tourraine,
filósofo francês, na obra “O que é a democracia” alertava que a democracia encontra-se
cerceada ou destruída quando a livre escolha dos eleitores é restringida pela existência
de partidos que mobilizam os recursos políticos e impõem aos eleitores a escolha
entre duas ou várias equipes que aspiram ao poder, não ficando claro que a oposição
entre elas corresponda às escolhas consideradas pelos eleitores como sendo as mais importantes.
Conforme Tourraine, a democracia exige, em primeiro lugar, a representatividade
dos governantes. A segunda característica é que os eleitores são e se consideram cidadãos.
Deve, ainda, existir no âmbito do Estado, assim como no plano do sistema político,
um elemento não político de autonomia em relação à vontade popular. No âmbito do Estado,
esse elemento é a independência e profissionalização dos funcionários. Até aqui, literalmente,
a lição de Alain Tourraine. Será que temos esse três elementos na democracia brasileira?
Aqui, o povo é passageiro. Só paga o transporte de um dia para o outro. E paga caro.
Suportamos a maior carga tributária do mundo e não recebemos em troca serviços públicos
de qualidade. O povo não é ouvido para nada. Vota e paga impostos. Ponto.
Não existe a profissionalização dos funcionários, mas, sim o loteamento de cargos.
Trocam-se votos por benesses e cargos. Aprova-se qualquer coisa. Querem um exemplo?
A lei das tomadas. De repente, sem que um único consumidor fosse consultado, na surdina,
aprovou-se uma lei desnecessária que atinge a vida de todos os que têm o privilégio do acesso
à energia elétrica. Um gênio, cujo nome não se sabe, inventou uma tomada cujo “padrão”
é único no mundo. Alguém apresentou um projeto de lei que foi aprovado.
Os nomes de cada um dos responsáveis não se sabe. O que se sabe é que de uma hora
para outra todos nós somos obrigados a nos adaptar ao novo padrão, ou seja, comprar
“adaptadores”. Verdadeiros mostrengos que custam cinco vezes mais que os adaptadores
antigos. Enquanto isso foi proibida de ser vendida no Brasil, outra tomada, um modelo
universal, inventado por brasileiros criativos, que servia para a maioria dos aparelhos
que todos nós, o povo, usamos. É a burrice anulando a criatividade e a praticidade.
Sabem qual foi a desculpa (justificativa) para aprovação dessa lei estúpida ?
Evitar que crianças levassem choques. Bem, então, devemos concluir que no resto do Planeta,
cada país esteja tentando eletrocutar suas crianças, pois nenhum adotou padrão de tomada
sequer parecida com a idiotice brasileira. Quem ganhou o quê para que essa lei fosse
aprovada? Talvez tenha sido a kratia porque o demos perdeu. Uma imagem vale mais
do que mil palavras. Chegue às suas próprias conclusões analisando a comparação
feita pela Revista Veja.

Por favor, me respondam, caros leitores, se o povo tivesse sido consultado
teria aprovado essa mudança ?

Claudio Candiota Filho
Advogado e presidente da ANDEP Associação Nacional em Defesa dos Direitos dos Passageiros
do Transporte Aéreo
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