
Pecados
Coluna Ana Mello
Tem um amigo de um amigo meu que é casado com uma ex-gordinha. Bem, gordinha ela sempre foi,
desde um pouco depois da lua-de-mel. Diziam que era de felicidade, ela cozinhava bem, o marido gostava,
ela comia para fazer companhia. Ele, o marido, não se importava. Sempre carinhoso, jamais fazia
qualquer comentário ou recriminava a esposa se ela comia uns docinhos a mais.
Alguns amigos perguntavam se ele estava grávida, ou faziam outros comentários deselegantes,
insinuando que o marido arrumaria outra mais em forma. Um amigo, se é que dá para chamar
uma pessoa assim de amigo, infernizava o marido. Nossa, dá um jeito nessa tua mulher, ele dizia.
Vai sair rolando por aí.
Ela percebia o olhar das pessoas, recriminando-a cada vez que levava o talher à boca.
E um dia deu um basta. Resolveu que seria magra, elegante, gostosa.
Caminhadas, dieta rigorosa, malhação, e o objetivo foi alcançado. Ester ficou linda.
João, o marido, não agüentava de felicidade. Mas o Manoel, o amigo aquele, ficava olhando irônico.
Olhar pensativo.
Até que não resistiu e comentou com o João, a Ester devia ter um amante. Nada mais explicaria
uma mudança assim repentina.
João resolveu falar com a Ester e ela deu um conselho ao marido. Disse a ele que tirasse o dinheir
o da poupança e comprasse um carro zero para ele.
Sem entender ele perguntou onde a mulher queria chegar com aquele pensamento.
Ela explicou que a inveja é um pecado capital e que o invejoso está sempre querendo uma coisa nova
para invejar, na falta de outro pecado para praticar. E que um homem sempre inveja mais de outro
homem, seu carro do que sua mulher.
João adorou a idéia e aderiu à luxúria para aplacar a inveja do Manoel.
Se é verdade? Eu não sei.














