
Ana Mello
Um ser obstinado é aquele, segundo o dicionário, que é perseverante, tenaz e persistente
em conseguir seus objetivos. Muitos homens fizeram história agindo dessa maneira
e tornaram-se famosos alcançando suas metas. Outros, não conseguiram e caíram em desgraça,
algumas vezes suas teorias foram comprovadas no futuro, muito além do seu tempo.
Pessoas comuns que não se destacam aparentemente em nada na sociedade
também podem ser obstinadas em cumprir determinadas tarefas ou agir na sua profissão,
já presenciei vários exemplos, na maioria em trabalhos intelectuais. Agora nas férias
tive a oportunidade de presenciar o trabalho de um rapaz construindo sua casa,
a casa para sua família. Conheço o projeto desde a fase do primeiro desenho e confesso
que não via com muito otimismo o desenrolar da obra. Por vários motivos, falta de recurso
financeiro, falta de mão-de-obra, tempo disponível para execução. Não sei muito bem quantos
anos se passaram, mas a casa está quase habitável e ele trabalha sozinho desde o início
do dia até bem tarde, quando já está escuro. Moveu toras de madeira, carregou tijolos,
rebocou e carregou muito massa e cimento. Ele fica concentrado, como se estivesse
se preparando para um torneio, ou no meio do torneio mesmo, lutando.
Todas as noites no fim do trabalho, o rapaz da obra, pega sua bicicleta, sai para comprar
uma cerveja e volta para a casa em construção. Observei isso por vários dias,
até que não resisti e perguntei o que ele fazia. Explicou que sentava lá no escuro pensando
no que tinha feito e no que faria no dia seguinte, programando sua mente para o futuro,
como um ritual de execução. Um treino mental. Incrível isso porque tem que ter muito foco
para ficar ligado em um projeto tão grande e demorado.
Sobre dinheiro posso dizer que costumo encontrar dinheiro perdido, muitos nas minhas
próprias roupas, quando chega o inverno pego um casaco e já reviso os bolsos porque
vou encontrar alguma surpresa. Antes das férias encontrei um envelope escondido na gaveta
com um cachê de uma feira do livro de 2010, muito bom. Meu cunhado que é motoboy encontra
dinheiro perdido seguidamente, envelopes muitas vezes sem identificação o que impede qualquer
tentativa de devolução. Ele acredita que os motoboys, colegas de profissão costumam ser muito
apressados e distraídos o que lhes causa alguns transtornos financeiros. O caso mais engraçado
aconteceu na pousada onde estou passando férias. Na volta do muro da propriedade,
pelo lado de fora, tem alguns cantos escondidos que algumas pessoas costumam utilizar
como banheiro. A dona da pousada revisa periodicamente para evitar que maus odores invadam
a propriedade e na última vez percebeu que alguém com dor de barriga havia se aliviado no costado
do muro. Providenciou o material necessário e foi recolher o presentinho quando percebeu uma nota
de vinte reais ao lado do montinho. Logo imaginou que o proprietário havia feito uso da nota
como papel higiênico, mas não era o caso, a nota estava limpa, provavelmente ele derrubou ao baixar
as calças. Pagou um pouco caro pelo mau uso da rua como banheiro.














